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Bíblia como Palavra de Deus (verbete)

Enciclopédia Digital THEOLOGICA LATINOAMERICANA

Verbete: Bíblia como Palavra de Deus

Leonardo Agostini Fernandes, PUC-Rio, Brasil.

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Sumário

1 Revelação
2 Inspiração
3 Inerrância e Veracidade
4 Línguas bíblicas
5 Formação do Cânon
6.1 Antigas versões
6.2 A versão aramaica
6.3 A versão grega
6.4 As versões latinas
6.5 Outras versões antigas
7 Versões modernas
8 Objeções à Bíblia e Ciências Humanas
9 Referências bibliográficas

Este verbete envolve o percurso e a dinâmica dos temas que caracterizam o ser e o agir de Deus, que se manifesta e vem ao encontro do ser humano, e denotam a percepção, a acolhida e a reflexão do ser humano como resposta a essa iniciativa divina.

Nesse percurso e dinâmica, os temas da Revelação e da Inspiração aportam diretamente nos temas da Inerrância e da Veracidade dos textos bíblicos, que foram escritos em hebraico, aramaico e grego. Essas são as línguas originais da Bíblia, que foi-se cristalizando durante um longo processo histórico, denominado Formação do Cânon do Antigo Testamento e do Novo Testamento.

Todavia, este conjunto de livros difere, na sua extensão e no seu número, de acordo com a aceitação das Antigas Versões existentes que deram origem às inúmeras Versões Modernas da Bíblia. Com o surgimento e a difusão da Crítica Literária, teve início uma série de Objeções à Bíblia que, no fundo, acabaram por permitir o desenvolvimento de interpelações e debates oriundos das Ciências Humanas, que, ao invés de descredenciarem a autoridade da Palavra de Deus, acabaram por incentivar novas pesquisas e descobrir novas formas de abordagem e de metodologias.

1 Revelação

Por revelação entende-se o ato pelo qual o próprio Deus, em sua bondade infinita, dignou-se a se fazer presente e atuante na história, palco dos acontecimentos, para dar-se a conhecer ao ser humano, elegendo-o seu interlocutor, através de fatos e palavras conexos entre si. Deus, adotando e fazendo uso dessa metodologia, permitiu que o ser humano pudesse encontrá-lo e experimentar a sua presença e ação de forma perceptível, pelos sentidos, e inteligível, pela razão. Se a experiência dos fatos fundamenta as palavras, as palavras preservam e explicam os fatos.

Essa dinâmica demonstra que a Revelação possui, em si, um duplo nível: a) um nível que diz respeito ao conteúdo revelado (ex parte Dei); b) um nível que diz respeito à inteligência do homem em relação a esse conteúdo revelado (ex parte hominis). Os dois níveis não somente envolvem as partes, mas comprometem os seus respectivos papéis na história da revelação.

A Dei Verbum n.2, sobre isso, afirma: “Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), no seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14- 15) e se entretém com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão.”

Deus, ao se revelar, assumiu a condição tanto de “sujeito da revelação”, como de “objeto da revelação”. No primeiro caso, Deus foi quem tomou a iniciativa de se revelar e de se manifestar de forma acessível e ao alcance das capacidades com as quais dotou o ser humano. No segundo caso, Deus tornou-se o conteúdo a ser experimentado, buscado e compreendido pelo ser humano, capaz de perceber e de adentrar no seu mistério, para reconhecê-lo como seu Criador. Apesar disso, a revelação não esgota o mistério de Deus. O que Deus revelou ao ser humano é o necessário para que ele realize a sua vontade e descubra o sentido da sua vida, da sua existência e do seu fim último: ser partícipe da sua íntima comunhão de amor (cf. 2Pd 1,4).

Se a essência da revelação é o próprio Deus, que se dá a conhecer ao ser humano, então a natureza da revelação consiste no modo pelo qual Deus se faz conhecido e se permite encontrar. A revelação histórica de Deus é o fundamento da História da Salvação. Dando-se a conhecer ao ser humano, Deus inaugurou, igualmente, a via de acesso pela qual ele pode encontrar respostas para os seus questionamentos e anseios mais profundos. Ao descobrir quem é Deus, o ser humano passa a ter a possibilidade de se autodescobrir e saber não somente a sua identidade, mas, também, perceber a sua missão e qual é o seu fim último (Teleologia).

Se a revelação é autocomunicação de Deus, deve ser compreendida como evento salvífico. Esse evento teve início com a Criação, desenvolveu-se na história religiosa do antigo Israel e alcançou a sua plenitude no mistério da encarnação, vida, ministério público, morte e ressurreição de Jesus Cristo, para culminar com o envio do Espírito Santo. Por meio dessa trajetória histórica, Deus se deu a conhecer como comunhão: Deus é Uno e Trino.

Portanto, a revelação é um apelo de Deus, em forma de encontro e diálogo familiar com o ser humano que acredita na experiência que faz, e é, também, uma moção, enquanto abertura para a verdade, que reflete sobre a sua existência à luz da fé.

2 Inspiração

A concepção e a compreensão que se tem da inspiração bíblica estão na ordem da fenomenologia religiosa. Por meio dessa, acredita-se que uma especial ação de Deus possa ter acontecido em determinadas pessoas que, investidas pelo Espírito de Deus, receberam um carisma, isto é, uma graça particular para poder falar, agir e escrever as palavras que o próprio Deus quis comunicar aos seres humanos para revelar os seus desígnios salvíficos.

No âmbito religioso, essa concepção é universal e, portanto, não é uma característica específica e exclusiva da fé judaico-cristã. Os povos antigos (egípcios, assírios, babilônios, persas, gregos, romanos), porque eram religiosos, partilharam deste mesmo parecer. A razão disso é que a “comunicação inspirada” pela divindade é um elemento factual e potencialmente vivo na religiosidade dos povos anteriores e contemporâneos ao povo do Deus da revelação.

Na base dessa religiosidade, está a aceitação que as divindades existiam e podiam ser invocadas por mediadores, aos quais manifestavam, para um indivíduo ou uma comunidade, a sua vontade. Por meio do estabelecimento dessa comunicação quer-se saber quais sãos os desígnios divinos, principalmente para se obter sucesso nos projetos e neutralizar as possíveis desgraças.

Todavia, a nota específica que distingue a concepção judaico-cristã dos demais povos reside, exatamente, no fato dessa considerar como inspirados alguns escritos, que se tornaram normativos para a vida de cada indivíduo e da inteira comunidade. Esta acolhida foi o que determinou essa comunidade religiosa como povo da revelação.

Por inspiração divina da Sagrada Escritura entende-se, então, o influxo particular e especial de Deus, exercido na vida e nas capacidades de todos os que, de forma direta ou indireta, estiveram envolvidos no processo da elaboração dos livros sagrados. Ao lado disso, admite-se que a inspiração foi o que definiu Deus e os seres humanos envolvidos nesse processo como verdadeiros “autores” dos textos bíblicos.

Assim, a Sagrada Escritura, enquanto Palavra de Deus revelada e inspirada, foi escrita sob a ação do Espírito Santo, como afirma a Dei Verbum n.11:

As verdades reveladas por Deus, que se encontram contidas e expressas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa Mãe Igreja, por fé apostólica, considera como sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, tendo sido escritos por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 2Tm 3,16; 2Pd 1,19-21; 3,15-16), têm Deus por autor e como tais foram confiados à própria Igreja.

Essa afirmação, apesar de ser um ato de fé solene do Magistério da Igreja, não resolveu as numerosas questões que surgiram nos últimos tempos, e que têm exigido de biblistas e teólogos, a partir dos resultados obtidos pelos métodos exegéticos, uma reflexão cada vez maior, a fim de proporcionar uma melhor compreensão quanto ao tema da inspiração da Sagrada Escritura.

O termo inspiração não existe no Antigo Testamento, mas a sua compreensão pode ser depreendida das fórmulas de introdução dos oráculos proféticos: “Assim fala o Senhor” ou “Oráculo do Senhor”, que indicam a concepção da origem divina da palavra transmitida através dos Profetas. Jr 36,2.32 é um exemplo da fixação escrita da palavra profética. Ao lado disso, está a firme convicção de que a Torá (lei – instrução) contém a palavra de Deus normativa para o antigo Israel e que foi posta por escrito por ordem do próprio Deus (Ex 34,27-28).

Já em 2Tm 3,16 encontra-se a palavra theópneustos, que pode ser traduzida por um valor predicativo (“Toda Escritura é inspirada por Deus”) ou por um valor atributivo (“Toda Escritura inspirada por Deus”). Jerônimo traduziu por divinitus inspirata. Além dessa citação explícita, 2Pd 1,19-21 afirma que nenhuma profecia foi fruto de mera moção humana, mas resulta da ação do Espírito Santo, pelo qual homens falaram em nome de Deus. Esta certeza, com relação às palavras contidas nos escritos proféticos, foi estendida aos escritos de Paulo, dando a entender que houve dificuldades de interpretação da Escritura (2Pd 3,15-16).

Dessa base bíblica resulta a afirmação que Deus, ao transmitir a sua palavra, não dispensou os seres humanos envolvidos, mas quis revelar-se e expressar a sua vontade através da cooperação humana, valendo-se da sua cultura, da sua língua e das suas formas literárias, sem que nada do conteúdo ficasse comprometido. Se Deus não tivesse falado de forma humana, a comunicação não seria estabelecida e o seu ser e o seu agir não poderiam ser percebidos e compreendidos pelo ser humano. É o que está expresso na Dei Verbum n.11, assumindo a posição já contida na Providentissimus Deus e na Divino afflante Spiritu.

Todavia, para escrever os Livros Sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou na posse das faculdades e capacidades que tinham, para que, agindo Deus neles e por meio deles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que ele quisesse.

Portanto, a posição do Magistério, quanto à doutrina da Revelação e da Inspiração, possui a sua base na centralidade que Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, ocupa na Sagrada Escritura, pois ele é a sua chave interpretativa. Com isso, o profetismo, como sinal da inspiração divina no Antigo Testamento, e a realização das promessas, da lei e das profecias, no Novo Testamento, fundamentam a interpretação cristológica que se faz de toda Sagrada Escritura.

3 Inerrância e Veracidade

Dos temas da revelação e da inspiração derivam os temas da inerrância e da veracidade da Sagrada Escritura. Por inerrância entende-se a certeza de que o conteúdo dos livros da Sagrada Escritura não contém erros quanto à fé na existência de Deus, enquanto fonte de conhecimento capaz de orientar o comportamento humano.

A perspectiva sobre a inerrância, que se encontra na Dei Verbum n.11, revela que houve a intenção de se optar por uma compreensão de tipo positivo, no sentido de que o texto, claramente, abandona o modelo apologético. Embora se afirme que a Bíblia não contém erros, percebe-se que a ênfase recaiu muito mais sobre o fato de que os Livros da Escritura ensinam com certeza… a verdade relativa à nossa salvação. Assim, a inerrância da Bíblia deixa de ser o ponto central da questão sobre a veracidade da Sagrada Escritura, para que a verdade salvífica apareça como corolário.

A inerrância, então, comporta a admissão de que a Sagrada Escritura ensina a verdade, não obstante possam ser encontrados vários tipos de erros que ocorreram na transmissão escrita dos textos. Disto se ocupa a Crítica Textual, como passo metodológico fundamental para se reconstruir um texto danificado ou para se determinar que texto seria o mais próximo do que saiu das mãos do hagiógrafo. Nota-se, mais uma vez, que a natureza da possibilidade do erro não contradiz a doutrina afirmada, porque admitir um erro de transmissão escrita não significa negar a posição da Igreja no que diz respeito à inerrância bíblica, vinculada à comunicação da verdade que se refere, exclusivamente, à salvação do gênero humano e não a verdades de cunho histórico ou científico, no sentido moderno desses termos.

Assim, a constatação de erros de grafia, ao longo da transmissão escrita do texto, não compromete o sentido literal da Sagrada Escritura, que se alcança no acolhimento de cada texto na sua identidade literária e na sua estrutura contextual. O princípio fundamental que rege e orienta a fé na aceitação e na compreensão da inerrância bíblica é a fé de que os textos ensinam, com certeza, a verdade salvífica. Essa verdade é obtida na compreensão do conjunto da mensagem contida nos textos.

Uma vez que a finalidade da Sagrada Escritura é comunicar quem é Deus e qual é a sua vontade para o ser humano, é imprescindível lembrar que os autores sagrados foram pessoas totalmente integradas no contexto vital do seu tempo, imersos na sua própria cultura com tudo o que de limitado e inexato ela comportava em cada época ou estágio do processo de formação dos livros bíblicos. A ciência dos hagiógrafos era empírica e pertencia ao momento histórico, geográfico e cultural de cada um. Isso não foi um obstáculo, mas uma condição e o meio eficaz para que Deus se revelasse, manifestasse a sua vontade e essa fosse transmitida com fidelidade.

O conflito, gerado por correntes racionalistas e iluministas, foi querer ler e interpretar a Sagrada Escritura com a atenção direcionada apenas para dois pontos: a busca pela veracidade histórica das narrativas bíblicas e a visão do seu conteúdo teológico reduzido a uma mera produção humana, sem que houvesse fundamentos científicos para as verdades afirmadas. O resultado foi a criação de um abismo entre a verdade salvífica, transmitida na Sagrada Escritura, e a verdade acadêmica, comprovada pela ciência. Isso será tratado mais adiante no tópico “Objeções à Bíblia e Ciências Naturais”.

4 Línguas bíblicas

Os livros do Antigo Testamento foram escritos em hebraico, aramaico e, em certos casos, em grego. Já o Novo Testamento foi escrito em grego popular, denominado koiné. Alguns livros do Antigo Testamento, presentes no cânon católico, foram preservados somente em grego pela Septuaginta ou, simplesmente, LXX, como é conhecida. São os livros de: Tobias, Judite, 1-2 Macabeus, Eclesiástico, Sabedoria e Baruc.

O hebraico é uma forma dialetal, que estava em circulação na Palestina, juntamente com o aramaico, o cananeu meridional (cartas de Amarna), o fenício-púnico, o moabítico e o ugarítico. Esse, em particular, ajuda a compreender a pré-história do hebraico, desde a sua forma mais antiga, denominada de páleo-hebreu, até assumir a forma quadrada com a utilização do alfabeto aramaico. No Antigo Testamento, para se indicar o páleo-hebreu, usava- se “língua de Canaã” (cf. Is 19,18) ou “língua judaica”, para se distinguir do aramaico falado pelos neobabilônios (cf. 2Rs 18,26.28; Ne 13,24).

Assim, o hebraico bíblico é uma denominação tardia, que aparece citada no prólogo do livro do Eclesiástico, como sendo a língua em que foram escritos os livros contidos na Torá, nos Profetas e nos outros Escritos (TaNaK). O desenvolvimento do hebraico bíblico, de certa forma, se confunde com o processo de formação dos livros do Antigo Testamento e a sua utilização foi sendo identificada, cada vez mais, com a forma linguística usada no judaísmo jerusalimita.

A partir do século VI aC, o hebraico foi sendo suplantado pelo uso do aramaico como língua falada e também escrita. Alguns textos do Antigo Testamento foram escritos em aramaico imperial ou diplomático: Esd 4,8–6,18; 7,12-26; Dn 2,4b–7,28 (esses textos não aparecem nas edições protestantes da Bíblia); Jr 10,11 e duas palavras em Gn 31,47. Após as conquistas de Alexandre Magno e a difusão do helenismo, o grego foi imposto como língua falada, mas o aramaico conservou-se em diferentes formas dialetais.

A partir do IV século aC, o grego koiné tornou-se o principal veículo linguístico, falado e escrito, para propagar o helenismo em um vasto império, como cultura dominante, mas principalmente como forma de governo. Este caminho aberto serviu para que diferentes crenças religiosas se difundissem rapidamente em todo o mundo, favorecendo o intercâmbio religioso, principalmente das chamadas religiões de mistério. Foi por causa disto que a palavra sincretismo ganhou também uma forte conotação religiosa.

A Bíblia grega, denominada Septuaginta, e os primeiros documentos produzidos pelo cristianismo, que deram origem aos textos do Novo Testamento, foram escritos no grego koiné falado e não na sua forma culta e literária, o grego clássico. Os cristãos, ao assumirem a LXX como texto oficial das escrituras dos judeus, porque continham as antigas promessas messiânicas, aproveitaram esse elemento linguístico como força comunicativa e conseguiram levar, para o mundo greco-romano, a fé e os ensinamentos de Jesus Cristo, que cumpriu todas as Sagradas Escrituras.

5 Formação do Cânon

O vocábulo grego kanôn deriva de uma palavra semita que, em acádico, é qin; em ugarítico é qn; em assírio é qanû; e em hebraico é qâneh. Essa terminologia passou para as línguas neolatinas através do latim canna, que no português significa “cana ou bastãozinho”. No Antigo Oriente Próximo, o cânon era uma vara reta ou barra, próxima do que se chama de régua, que servia de critério, isto é, representava uma unidade de medida utilizada por pedreiros ou carpinteiros (cf. Ez 40,5.6.7.8). O termo, em sentido metafórico-figurado, também já denotava uma regra, uma norma, um grau de excelência ou um critério-parâmetro com o qual uma pessoa podia julgar se uma doutrina, um raciocínio ou um juízo estava correto, isto é, de acordo com a realidade. O termo cânon será utilizado, também, com o sentido de série ou elenco, passando a ser aplicado à lista dos livros sagrados dos judeus e dos cristãos.

Do ponto de vista bíblico, então, o cânon indica um conjunto de escritos que judeus e cristãos consideram como normativos para a vida de fé individual e comunitária. Ao se determinar o cânon das suas escrituras sagradas, tanto o judaísmo como o cristianismo estavam definindo a sua própria identidade de fé. O critério fundamental para um livro ser considerado canônico é o reconhecimento de que ele foi inspirado por Deus e, logo, contém a revelação da verdade que Deus quis transmitir.

O processo de formação do cânon do Antigo Testamento não foi o mesmo que o do Novo Testamento. Os livros, que compõem o Pentateuco, os Livros Históricos, os Livros Proféticos e os Livros Sapienciais, passaram por um longo processo redacional até chegarem à sua forma final. Esse processo durou, aproximadamente, 1000 anos para o Antigo Testamento. Já para o Novo Testamento, o processo foi mais breve e levou cerca de 150 anos.

A elaboração e aceitação de novos livros pelos cristãos foi o que levou os judeus a estabelecerem os quatro critérios básicos para que um livro fosse aceito como canônico, no final do século I dC, provavelmente durante o sínodo dos antigos rabinos realizado em Jâmnia, que fixou o cânon judaico dos 39 livros que formam a Bíblia Hebraica. O primeiro critério dizia respeito à língua, tinha que ter sido escrito em hebraico, tida como língua sagrada. O segundo critério dizia respeito ao local, tinha que ter sido escrito na região da Palestina. O terceiro critério dizia respeito à época, tinha que ter sido escrito antes das reformas empreendidas por Esdras e Neemias, que deram origem ao judaísmo. O quarto critério dizia respeito à conformidade com a Torá de Moisés. Esse era o principal critério, pois com relação ao cristianismo nascente, servia de base para se refutar muitas das afirmações contidas nos escritos que formariam o Novo Testamento.

O cânon dos livros é diferente na Bíblia Hebraica e na Bíblia Cristã. A primeira está subdividida em três blocos: Torá, Nebi’îm e Ketubîm. A segunda necessita, ainda, de uma distinção. A Bíblia Protestante segue o mesmo cânon da Bíblia Hebraica e, por isso, não possui sete livros: Tobias, Judite, 1-2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. Esses livros e alguns suplementos próprios da versão grega, presentes nos livros de Ester e Daniel, foram reconhecidos como canônicos pela Igreja Católica e, a partir de 1566, passaram a ser denominados deuterocanônicos.

O termo deuterocanônico, aplicado a esses sete livros e suplementos, não é muito adequado, pois, necessariamente, não significa que eles foram inseridos no cânon da Igreja Católica num segundo momento. Designa, porém, aqueles livros sobre os quais o caráter inspirado e canônico tinha sido posto em dúvida por alguns autores cristãos da antiguidade, entre os quais esteve São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, denominada Vulgata.

A primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses foi o escrito ocasional que inaugurou o conjunto dos escritos que formariam o Novo Testamento. O evangelho segundo Marcos foi, provavelmente, o primeiro do gênero, seguido depois por Lucas, Mateus e, no final do século I dC, por João. Estas atribuições, porém, são posteriores aos próprios escritos e remontam aos Padres da Igreja que foram, por certo, os responsáveis por determinar quais livros fariam parte do cânon cristão.

A canonicidade de um escrito do Novo Testamento pode ser admitida, em linhas gerais, quando o seu conteúdo pode ser identificado com a fé da Igreja primitiva. Ao lado disso, o testemunho, como expressão do tempo que se liga ao evento Jesus Cristo, foi igualmente determinante. Em geral, critérios externos e internos foram formulados para definir quais livros fariam parte do Novo Testamento.

Quanto aos critérios externos, em primeiro lugar, evoca-se a “autoridade dos autores”, muito mais pautada na Tradição do que em evidências históricas. Em segundo lugar, “o tempo privilegiado das origens”, isto é, o período apostólico. Em terceiro lugar, a “ortodoxia da doutrina contida nos escritos”, derivada quer do ensinamento de Jesus Cristo, quer da autoridade transmitida aos apóstolos. Em quarto lugar, “a utilização litúrgica”, pela qual os escritos eram proclamados publicamente numa reunião oficial da Igreja.

Quanto aos critérios internos, evoca-se o reconhecimento da experiência e ação do Espírito Santo na vivência da comunidade que acolhe e elabora, dando forma ao conteúdo oral ou escrito que recebe. O mais importante, é o reconhecimento da Igreja dentro de um processo vivo e aberto, chamado Tradição, que acolhe e toma posse do que foi transmitido através dos autores reconhecidamente inspirados.

O cânon das Escrituras é, para a Igreja de todos os tempos, a verdadeira e própria norma non normata, acontecida e revelada, implicitamente, no período apostólico e elaborado, explicitamente, nas decisões que a Igreja tomou ao longo dos séculos, principalmente através das disposições e afirmações frutos dos Concílios Ecumênicos.

6 Antigas versões

Pelo termo versões se designam as diversas formas em que a Sagrada Escritura foi divulgada ao longo dos séculos, tanto em línguas originais como nas diversas traduções que foram feitas. É possível, então, que várias versões tenham tido origem em uma mesma tradução e que diversas traduções tenham sido realizadas a partir de uma versão. Disso resultam as famílias textuais da Sagrada Escritura.

6.1 A versão aramaica

Os livros sagrados foram escritos em hebraico e assim eram lidos nas assembleias litúrgicas, mas o povo, após o exílio na Babilônia, adotara o aramaico como língua falada e escrita, por ser a língua internacional usada pelos dominadores persas. Desse fato resultou a necessidade dos “tradutores” interpretarem para o aramaico o que fora lido em hebraico. Quando se tratava de um texto da Torá, a tradução era feita a cada versículo. Quando se tratava de um texto profético, a tradução era feita a cada três versículos. É possível dizer que esse procedimento sinagogal foi um real trabalho de tradução simultânea já na antiguidade.

De início, essa tradução foi somente oral, mas a partir do século I a.C. começou a ser feita também por escrito, originando a versão targúmica da Sagrada Escritura. Existem livros em aramaico de quase toda a TaNak, salvo dos livros de Esdras, Neemias e de Daniel. Quando os targumim são comparados com o Texto Massorético, reproduzido no Códice de Leningrado, notam-se algumas diferenças. Essas são explicadas, na maioria das vezes, levando-se em consideração que na base dos targumim estaria um texto hebraico consonantal anterior ao que se tornou normativo a partir de Jâmnia, e porque a tradução em aramaico era livre e de cunho explicativo.

6.2 A versão grega

A partir do século III aC, os judeus da diáspora que passaram a viver em Alexandria, no Egito, preocupados com a transmissão da fé e dos costumes judaicos aos filhos que nasciam em terras dominadas pelo helenismo e incentivados pelo rei Ptolomeu II, começaram um trabalho de tradução, da Torá para o grego, de um texto hebraico consonantal denominado pelos estudiosos de Protomassorético. Uma antiga lenda conta que setenta anciãos judeus de Alexandria foram escolhidos e designados para realizar essa tradução. Disso resultará a denominação Septuaginta para a versão grega da Bíblia Hebraica. Após a tradução da Torá, o trabalho continuou e no final do século I aC todos os livros estavam traduzidos. Outros também surgiram em língua grega, mais tarde, e não foram aceitos pelos judeus de Jâmnia, mas alguns foram adotados pelos cristãos. Dentre esses estão os deuterocanônicos.

A LXX foi fundamental para a expansão do cristianismo fora da Palestina, visto que o hebraico e o aramaico circunscreviam as Sagradas Escrituras somente aos judeus. Graças ao grego, adotado como língua cultural no vasto Império Romano, a campanha missionária cristã, muito favorecida pelo apóstolo Paulo, pode, em primeiro lugar, tornar as Sagradas Escrituras dos judeus conhecidas e, em segundo lugar, favorecer o surgimento dos escritos que comporiam o futuro cânon do Novo Testamento.

6.3 As versões latinas

Não obstante o grego fosse uma língua muito apreciada, o latim também tinha uma força muito grande, principalmente por sua valorização por poetas e escritores como Virgílio, Cícero, Horácio e Ovídio. Com a simpatia do Imperador Constantino pelo cristianismo, pois a sua real conversão, ao que tudo indica, aconteceu pouco antes da sua morte, e a proclamação da religião cristã como oficial de todo o Império Romano pelo imperador Teodósio, houve uma intensa popularização do cristianismo, que ocasionou a tradução da Bíblia para o latim. Várias versões surgiram, mas a mais importante foi a Vetus Latina, que esteve muito em voga no Norte da África, visto que o latim era a língua mais popular. A Vetus Latina foi, provavelmente, a Bíblia de Santo Agostinho.

No século IV dC, São Jerônimo recebeu e acolheu a solicitação do Papa Dâmaso I para que revisse a tradução da Bíblia para o latim, pois havia uma grande circulação de versões discordantes. A obra empreendida por São Jerônimo ficou conhecida como Vulgata, cuja sigla é Vg. Esta tradução, inicialmente, não teve o mesmo impacto da Vetus Latina e somente foi adotada como versão oficial da Igreja Católica Ocidental (Romana) durante o Concílio de Trento (1545-1563). A sua impressão foi patrocinada pelo Papas Sisto V e Clemente VI, razão pela qual passou a ser conhecida como Vulgata sisto-clementina. Duas revisões foram feitas após o Concílio Vaticano II (1963-1965), uma promovida pelo Papa Paulo VI e outra por são João Paulo II, ambas encomendadas aos monges da Abadia de São Jerônimo em Roma, e a nova publicação, levando em conta as pesquisas bíblicas recentes e uma maior aproximação do hebraico, aramaico e grego, passou a se chamar Nova Vulgata.

6.4 Outras versões antigas

Além das traduções gregas e latinas, outras versões, totais ou parciais, surgiram nos primeiros séculos do cristianismo em língua siríaca (peshita), egípcia (copta), armena etc., que ainda estão em uso na liturgia desses ramos do cristianismo ortodoxo.

7 Versões modernas

As versões parciais ou totais da Bíblia multiplicaram-se, nos últimos cinco séculos, em um incontável número de novas “vulgatas”, em línguas germânica e anglo-saxônicas: alemão e inglês; e em línguas neolatinas: italiano, francês, espanhol, português etc. As versões elaboradas por protestantes saíram na frente e somente com o Papa Bento XIV (1757) é que as versões católicas, tendo a Vulgata por texto oficial, começaram a aparecer com mais frequência e sempre sob aprovação da Santa Sé ou, fora da Urbe, sob a constante vigilância dos Bispos. Tanto o antigo Código de Direito Canônico de 1917 (cân.1391), como o novo Código de 1983 (cân.825) regulamentaram as traduções que, sem dúvida alguma, ganharam grandes estímulos no Concílio Vaticano II, na Dei Verbum n.22.

Neste ponto, serão citadas, apenas, as de maior relevância e que tiveram maior impacto. Em alemão, a mais famosa é a versão de Lutero, que foi a primeira a ser traduzida levando em conta as línguas originais. Na verdade, essa versão acabou por se tornar o parâmetro de unificação para a futura língua alemã oficial, visto que eram muitos os dialetos. Lutero não descuidou na sua tradução, buscando sempre a palavra mais adequada, e teve presente tanto a Vulgata como os comentários patrísticos de sua época. Ele usou para o Antigo Testamento a versão latina do texto hebraico feito por Sante Pagnini, que o dividiu em versículos, serviu-se inclusive da ajuda de judeus, e da edição de Erasmo da Septuaginta para o Novo Testamento.

Da parte católica, dentre as várias traduções, duas foram muito apreciadas: a editada por Weitenauer (Augsburg, 1783-1789) e a de Loch – Reischl (1851-1866), a partir da Vulgata, mas munida de um aparato crítico, levando em conta as variantes do hebraico e do grego. Em 1972, para o Novo Testamento, e em 1974, para o Antigo Testamento, surgiu uma edição conjunta da Bíblia, envolvendo os bispos da Alemanha, Áustria, Suíça, Luxemburgo e Lüttich. Em 1980, essa edição sofreu uma revisão.

Em anglo-saxônico, as versões mais conhecidas e difundidas são a King James’ Bible (1604), encomendada pelo rei anglicano James; a Authorized Version (1607-1611); a Standard Version (1881, para o NT, e 1884, parra o AT); a American Standard Version (1900-1901); a Revised Standard Version (1946-1957); a New English Bible (1961-1970), fruto desejado de uma reunião da principais Igrejas protestantes; e a Good News Bible, que foi publicada em 1976, tanto em Londres como em Nova York.

Em italiano, antes do Concílio de Trento, surgiram a Bibbia di Nicolò Malermi e a tradução de Antonio Brucioli, feita a partir das línguas originais. A versão italiana da Vulgata foi obra de Antonio Martini, em 23 volumes. Entre 1923-1958, surgiu uma tradução em italiano, editada por Alberto Vaccari e colaboradores do Pontifício Instituto Bíblico, a partir das línguas originais, com notas de crítica textual e comentário. A partir de 1943, ano da publicação da Encíclica Divino afflante Spiritu, de Pio XIII, surgiram a La Sacra Bibbia, obra organizada por Garofalo e Rinaldi, e um grande número de novas versões com comentários científicos, dentre as quais destaca-se a Nuovissima versione della Bibbia em 46 volumes, que, em 1983, foi reunida em um único volume. Muitas outras poderiam ser citadas, um destaque, porém, vai para a Bibbia di Gerusalemme (1974; 1993), que traz o texto oficial da Conferência Episcopal Italiana, Bibbia CEI (1974), com as notas da Bible de Jérusalem.

Em francês, a primeira versão completa foi a Bible de Sainte Louis IX, do século XIII, traduzida do latim. Em 1535, um primo de Calvino, Olivetano publicou uma tradução a partir dos originais e que serviu de base para futuras versões protestantes até o século XIX. A três versões completas mais importantes foram a Bible de Jérusalem que, inicialmente, surgiu em 43 volumes (1948-1952) e, depois, em um único volume (1956); a Bible de La Pléiade, organizada por Dhorme (1956-1959); e a Sainte Bible, dirigida por Pirot e Clamer (1935-1959). Enfim, a Traduction Oecuménique de la Bible (TOB), fruto da colaboração de católicos e protestantes que apareceu em 1975 e foi revista em 1988.

Em espanhol, houve versões parciais anteriores ao Concílio de Trento, mas por causa da Inquisição espanhola as publicações católicas e a leitura da Bíblia foram proibidas em língua vulgar. Essa situação durou até 1780. Em contrapartida, entre os judeus e os protestantes a história foi diferente e surgiram a Biblia de los Hebreus ou del Ferrara e a Biblia del Oso, que foi a primeira versão completa em espanhol (1567-1569) e foi traduzida diretamente da versão hebraica de Sainte Pagnini e, linguisticamente, supera a Biblia del Ferrara. No século XX, surgem a edição organizada por Nacar–Colunga em Madrid (1944 e revista em 1968); a edição de Bover–Cantera, também em Madrid (1947 e revista em 1962); e a Sagrada Biblia de Cantera–Iglesias, que é uma versão crítica feita a partir das línguas originais (1975). De grande valor literário é a Biblia del Peregrino, em 3 volumes, dirigida por Alonso Schökel (1996).

Na América Latina, a versão católica mais difundida é a La Biblia Latinoamericana conhecida também por La Biblia de Nuestro Pueblo ou La Nueva Biblia – Edición Pastoral para Latinoamérica, que foi feita no Chile a partir das línguas originais. Foi obra de Bernardo Hurault, publicada na Espanha em 1972, por motivos econômicos, pela Editorial Verbo Divino. Em 2004, uma nova edição revisada foi publicada em conjunto pela San Pablo e Editorial Verbo Divino. Desde a segunda metade do século passado, houve também grande circulação da Bíblia de Jerusalém em espanhol. A entrada da Bíblia na América Latina de língua espanhola deve-se, porém, à Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira que fez chegar os primeiros exemplares na Argentina e no Uruguai em 1806.

Em português, houve, desde antes do Concílio de Trento, várias iniciativas de tradução da Bíblia, mas nunca chegaram a uma edição completa em Portugal. João Ferreira de Almeida foi o primeiro a traduzir a Bíblia para a língua portuguesa, e o fez a partir das línguas originais, começando pelo Novo Testamento e usando o Textus Receptus. Almeida não conseguiu traduzir todo o Antigo Testamento. Em 1691, ano de sua morte, tinha conseguido chegar até Ez 48,12. A tradução foi completada por Jacobus van den Akker em 1694. Em tom comparativo, pode-se dizer: o que a tradução de Lutero foi para o alemão, a tradução de João Ferreira representou para o português. Nos últimos trinta anos, a tradução do Almeida, como é mais conhecida, recebeu várias revisões, dando origem a novas edições: Almeida Corrigida Fiel; Almeida Revista e Atualizada; Almeida Revista e Corrigida.

Além da tradução do Almeida, a tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo também obteve grande aceitação. Entre 1778-1781 publicou, em 6 volumes, o Novo Testamento. Entre 1782-1790, em 17 volumes, publicou o Antigo Testamento. Em 1819, foi publicada uma versão em 7 volumes, e em um único volume em 1821.

No Brasil, a primeira tradução completa da Bíblia, erudita nas suas características e bem literal a partir das línguas originais, surgiu em 1917; contou não somente com a participação de teólogos, mas com a revisão linguística e literária de Ruy Barbosa. Entre 1950 e 1990, a Editora Paulinas publicou a versão do padre português Mattos Soares que traduziu diretamente da Vulgata, na década de 1930. Em 1976, surgiu, baseada na versão francesa, a edição da Bíblia de Jerusalém pela Editora Paulinas, que contou com a participação de muitos especialistas. Em 2002, já pela Paulus, surgiu a nova edição da Bíblia de Jerusalém, revista e ampliada. A Bíblia Sagrada editada pelas Vozes, e sob a coordenação geral de Ludovico Garmus, contou com vários biblistas e foi publicada, a partir das línguas originais, em 1982. Neste mesmo ano, também foi publicada uma Bíblia Sagrada pela Editora Santuário e, no ano seguinte, a Bíblia Mensagem de Deus, publicada pela Loyola. Em 1990, sob a coordenação de Ivo Storniolo, foi publicada a Bíblia Sagrada Edição Pastoral, visando mais aos leigos e que acaba de ser reeditada (2014): Nova Bíblia Pastoral. Enfim, para comemorar o jubileu de ouro da CNBB, em 2001 foi publicada a Bíblia CNBB; está em andamento a sua revisão.

8 Objeções à Bíblia e Ciências Humanas

A Bíblia recebe o maior número de objeções dos meios científicos ligados à História, à Arqueologia e às Ciências Naturais. A juventude, por ter maior acesso aos estudos, é a mais influenciada e disposta a erguer bandeiras, quando se depara com docentes capazes de apresentar critérios e argumentos que, à primeira vista, parecem irrefutáveis.

Não raro, escutam-se questionamentos, posicionamentos e comentários oriundos tanto dos meios acadêmicos, quanto também dos populares, do tipo: “A Bíblia não é uma fonte confiável de história e para a história”, inúmeros estudos derivados da Arqueologia e da História comparada das religiões comprovam isso; ou “A Bíblia não diz a verdade, porque as Ciências Naturais contradizem as suas afirmações, principalmente quanto à origem e à evolução do universo e das formas de vida, em particular a humana, sobre o planeta terra”. A discussão, então, passa a oscilar entre mito e verdade.

Na base das afirmações estão, sem dúvida, certezas de ordem científica, mas também estão preconceitos ou falta de informação sobre a natureza da Bíblia. Some-se a isso a dicotomia que permeia muitos espaços humanos colocando em conflito a fé e a razão. Por um lado, se encontram os defensores fideístas e fundamentalistas das verdades bíblicas, que ignoram os postulados da Ciência. Por outro lado, se encontram os defensores das posições racionalistas, iluministas e positivistas, que ignoram os vários sentidos contidos nos textos bíblicos. Para esses, a única verdade que existe e deve ser aceita é a verificada, que deriva da comprovação científica com base na repetição das experiências. Em muitos casos, os dois grupos se “excomungam” reciprocamente.

Diante desse impasse, então, é importante que se faça uma distinção quanto à natureza dos textos bíblicos e os objetos de estudo das ciências. Assim, é possível conceder, em parte, a razão para ambos os lados, desde que haja o mútuo interesse em se buscar uma posição equilibrada e capaz de gerar diálogos profícuos, nos quais são respeitadas as competências. Para que isso aconteça de maneira oportuna e eficaz, faz-se igualmente necessário que as verdades bíblicas e as verdades científicas não sejam colocadas no mesmo nível e sobre os mesmos patamares.

Se o horizonte da Ciência é o desconhecido e o ainda não solucionado – por exemplo, quanto à formação da matéria e a compreensão da antimatéria do universo, por certo, em expansão – o horizonte da Bíblia é o ser humano direcionado para a harmonia do seu ser e da busca da felicidade. Quando os dois horizontes se alinham e não se ofuscam, como em um eclipse, são superadas as incertezas e iluminadas obscuridades da história do saber humano, e projeta-se luz sobre as realidades inacessíveis à razão.

A fim de facilitar esse diálogo, já desde o século XIX os estudiosos da Bíblia viram a necessidade de se aplicar aos textos metodologias e abordagens científicas, para alcançar resultados mais convincentes quanto à teologia e à mensagem neles contidas. O principal foi o Método Histórico-Crítico, de índole diacrônica, que foi assumido dos círculos filosóficos preocupados em estabelecer os textos originais dos filósofos da antiguidade. Esse método reúne uma série de procedimentos literários, com a pretensão de alcançar a gênese e os processos históricos existentes por detrás dos textos.

Nos últimos anos, apesar de muitos frutos obtidos, essa metodologia recebeu fortes críticas, porque sozinha não consegue dar conta de toda a problemática e riqueza encerradas nos textos bíblicos. Ao lado dessa constatação, os resultados obtidos são, em muitos casos, até contraditórios, colocando as verdades encontradas como alvo de relevantes questionamentos. Isso fez surgir, no mundo exegético-teológico, novas abordagens e metodologias, não menos rigorosas e de índole mais sincrônica, bem mais preocupadas e focadas na Bíblia como literatura, mostrando que seus autores e suas reflexões estavam plenamente inseridos no contexto do Antigo Oriente Próximo.

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